Japão admite que programa agrícola moçambicano ProSavana baseia-se em polémico modelo brasileiro

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Folha 8 | 26 Jul 2014

Japão admite que programa agrícola moçambicano ProSavana baseia-se em polémico modelo brasileiro

Um conselheiro da embaixada do Japão em Moçambique reconheceu no 24.07, que o programa agrícola moçambicano ProSavana tem como modelo o Prodecer, implementado no Brasil, admitindo os seus aspectos negativos, mas considerando “injusta” a desvalorização dos positivos.

Falando durante a II Conferência Triangular dos Povos - Moçambique, Brasil e Japão, promovida por organizações da sociedade civil dos três países, Jiro Maruashi disse que o ProSavana está “sob a sombra do Prodecer”, um programa agrícola desenvolvido pelos governos brasileiro e japonês no cerrado brasileiro, durante a década de 1970.

Bastante polémico por alegadamente ter promovido a usurpação massiva de terras de camponeses por multinacionais, o Proceder foi inicialmente apresentado como o formato de desenvolvimento do ProSavana, programa tripartido que envolve os governos moçambicano, japonês e brasileiro e que foi desenhado para as províncias de Nampula, Niassa e Zambézia, numa extensão de cerca de 14 milhões de hectares de terra.

Com o surgimento de reacções negativas por parte da sociedade civil à implementação do ProSavana, a ligação oficial entre os dois programas vinha sendo desconstruída pelas autoridades envolvidas na sua execução. “Não posso negar o óbvio: há aspetos negativos sob a sombra do Prodecer, mas, ao mesmo tempo, é injusto não admitir o valor que este programa trouxe ao Brasil, Japão e ao mundo inteiro”, afirmou o conselheiro japonês, enfatizando que o ProSavana pretende aumentar a “soberania alimentar de Moçambique”.

Criticado pela sua alegada dimensão voltada para os agronegócios, o ProSavana é rejeitado pela sociedade civil moçambicana, que teme que o programa precarize a situação de vida de milhares de camponeses, ao fomentar a produção de monoculturas de soja, milho, girassol e algodão, uma acusação que os governos dos três países rejeitam. As organizações reprovam também o que clima de secretismo que afirmam estar instalado à volta da iniciativa lançada em 2011.

Durante a conferência, as organizações exibiram um trecho de um vídeo com uma entrevista de uma televisão brasileira ao coordenador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Clebe Guarany, em que o responsável admitia que ideia subjacente ao ProSavana é “basicamente repetir” o Prodecer, afirmando que estaria focado, além do apoio aos agricultores moçambicanos, para a exportação. A FGV está associada à Agência Brasileira de Cooperação, que representa o Brasil no projeto ProSavana.

“Com este modelo [Prodecer], em 50 anos o Brasil rural foi transformado. Antes, 80% da população morava no campo. Hoje, apenas 16 por cento. É este o modelo de desenvolvimento que Moçambique quer? Trazer 12 milhões de famílias do campo para a cidade? Há espaço para isso?”, questionou Gilberto Shneider, da organização brasileira Movimento de Pequenos Agricultores.

As autoridades brasileiras estiveram representadas no encontro, através do secretário da embaixada do Brasil em Moçambique, Matheus Carvalho, que, durante a sua intervenção, nunca se referiu ao Prodecer.

“Cada um [dos Governos] diz uma coisa e a verdade não existe. Conhecemo-la através das pesquisas que temos feito e não da boca deles [governos]. Já temos imensos problemas com usurpação de terras. Se nos querem ajudar, parem com o programa”, afirmou à Lusa Anabela Lemos da organização moçambicana Justiça Ambiental, considerando que a conferência conseguiu “enfraquecer” o ProSavana.
Original source: Folha 8
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